Para começar a sentir o gostinho do romance Só Você…

1.Ellis

Recife, dezembro de 2008

Sabe aquele alívio que você sente quando tira aquele

sapato que passou o dia inteiro te apertando? Pois é…

Era como eu me sentia.

Era o último dia de aula antes das minhas tão esperadas

férias de verão.

Sempre tive vontade de cursar nutrição. O dia em que vi

meu nome na lista dos aprovados do vestibular foi o mais eufórico

da minha vida. No entanto, depois de um penúltimo semestre

cansativo, com muitas aulas, e ainda um estágio que me

mantinha ocupada por quase quatorze horas por dia, me sentia

aliviada. Não que tivesse grandes planos. Só estava considerando

passar uma semana inteira trancada em casa, relendo meus

romances favoritos e assistindo a todos os filmes água com açúcar

possíveis como um plano super bem elaborado.

Você pode estar pensando: Nossa! Que solidão. Não,

não… Não estava pensando em fazer isso sozinha. Para tanto,

ia convocar meus dois melhores amigos e tenho certeza

que você vai amá-los tanto quanto eu.

Caminhei para fora da sala de aula em direção ao elevador.

Vi todos os meus colegas e os estudantes das outras

turmas indo na mesma direção. Logo percebi que, se eu

realmente não quisesse esperar muito para ir embora, não

poderia ir pelo elevador. Resolvi então ir pela escada; afinal,

são apenas seis andares e ainda poderia aproveitar para fazer

um pouco de exercício, já que com a correria da última semana

mal tive tempo de ir à academia. Sou superdisciplinada

quanto à alimentação e aos exercícios. Acho que isso faz

parte da profissional que serei e também ajuda a me sentir

bem comigo mesma. Não sou a garota mais bonita da faculdade,

mas nunca me faltaram olhares, garotos interessados

e paqueras. Nada muito profundo. Nunca me apaixonei de

verdade, apenas uns romances breves, divertidos, mas sem

corações palpitando e borboletas na barriga.

Sou uma garota de pele branca, com olhos cor de mel e cabelos

castanho-claros lisos, com cachos nas pontas que amo,

corpo magro, porém com curvas. No auge dos meus vinte e

dois anos, estou satisfeita com o que vejo no espelho. Tenho o

temperamento doce e gentil, porém sou um pouco mandona

e tenho a cabeça mais dura que o doce mais típico aqui do

Nordeste, a rapadura. Essas são as afirmações dos meus melhores

amigos. Não sei se concordo totalmente com isso.

Na escada, percebi que muitas pessoas tiveram a mesma

ideia que eu, já que cruzei com alguns amigos que me

cumprimentaram. Um deles foi o Marcelo, um cara bonito,

alto, com os olhos da mesma cor dos meus, cabelos lisos,

loiros, os quais, em minha opinião, poderiam ser um pouco

mais curtos. Ele sempre teve uma queda por mim, até já

trocamos uns beijos uma vez, mas ele realmente não faz o

meu tipo. Marcelo é daqueles que pega qualquer mulher que

tenha trinta e dois dentes. Não tenho nada contra garotos

que ficam com quem quiserem, só não quero sair com um

cara que já rodou na mão da cidade inteira. Ele me viu e me

lançou seu melhor sorriso:

– Oi, Ellis! E aí, gata, grandes planos para as férias?

– Claro! – respondi, retribuindo o sorriso.

Seu olhar se tornou malicioso.

– Espero estar incluído em alguns deles.

Ainda sorrindo, continuei:

– Planejo não fazer planos, baby. – Lancei um sorriso divertido,

beijei sua bochecha e desci o resto da escada quase

correndo. Ainda assim, escutei a voz de Marcelo prometendo

que iria me ligar. Continuei apressada no meu caminho

e não me dei ao trabalho de responder. Ele é um cara legal,

mas, definitivamente, não pretendo gastar nem um minuto

das minhas férias em sua companhia.

Cheguei ao estacionamento onde meu carro estava parado.

Um Chevrolet Celta, prata, ano de 2005, presente do

meu pai. Ele é o meu brinquedinho; é cheio de acessórios

femininos, desde o chaveiro em forma de flor, um coração de

pelúcia vermelho pendurado no retrovisor, até um adesivo

na traseira em forma de laço. Não é nenhuma máquina, mas

é superútil para mim.

Sentei no banco do motorista, joguei minha bolsa, caderno

e livros no banco de trás, mas antes disso peguei meu celular.

Liguei o som do carro e estava tocando uma versão da

música Vinte e poucos anos do Fábio Júnior, executada pelos

Raimundos. Disco o número da minha melhor amiga.

Ah… Ainda não a apresentei a você.

Imagine aquela loira que só existe em propaganda de cerveja.

Com corpo escultural, baixinha, cabelos lisos e longos,

olhos verdes e supersexy. É a Débora. Para mim, Debi ou Bi.

Somos amigas desde as fraldas. Éramos vizinhas, estudamos

no mesmo colégio, na mesma sala a vida toda, temos a mesma

idade e somos grudadas. Só nos separamos quando entramos

na faculdade, porque, como você já sabe, escolhi ser

nutricionista, e ela, como amante dos animais, resolveu cursar

veterinária. Não a imagino fazendo outra coisa. Ela é uma

das pessoas mais amáveis que conheço, mas é frágil, insegura

e romântica incorrigível. Acha que todo sapo é príncipe.

Por conta disso, sempre acaba com o coração partido, pois se

apaixona por qualquer cafajeste que lhe diga meia dúzia de

palavras bonitas.

Depois de muitas tentativas, Debi não atende às minhas

ligações, o que num primeiro momento me parece estranho.

Então, resolvi dar a partida no carro e ligar para a pessoa que

enche a minha vida da mais sincera alegria: o meu melhor

amigo, Gustavo.

Gu é um moreno deslumbrante, alto, sarado, com os olhos

verdes, a pessoa mais verdadeira e divertida que conheço.

Agora você deve estar se perguntando: como pude tornar

um cara tão maravilhoso como Gu apenas meu amigo? Pois

é, esqueci-me de contar um detalhe. Para o lamento da população

feminina, Gu é gay.

Conhecemo-nos há seis anos, quando ele foi morar de

favor na casa de um amigo que, por obra do destino, morava

no mesmo prédio que eu e a Debi. Um dia, quando voltávamos

do colégio, o vimos sentado na frente do edifício com os

olhos tristes, cheios de lágrimas, e uma pequena mala ao seu

lado. Não consegui ignorar tamanha tristeza e puxei assunto

com ele para tentar entender como um menino tão lindo

poderia estar tão triste. Movido por uma afinidade inexplicável,

ele nos contou o drama da sua vida.

Seu pai descobrira sua orientação sexual, o espancou e o

colocou para fora de casa. Sua mãe, uma dona de casa submissa

às vontades do marido, não encontrou forças para impedir

a injustiça e apenas ficou tentando ajudar o filho sem

que o marido soubesse. Depois disso, ele foi se abrigar na

casa desse amigo até conseguir um emprego e um lugar para

morar e começar sua vida sozinho. Gu tinha dezessete anos e

acabara de ser aprovado no curso de Educação Física. Meses

depois ele conseguiu um emprego, iniciou seu curso e encontrou

um lugar para morar. Sua mãe o visitava sempre. Ele

entedia a falta de atitude da mãe e a perdoava. Ela era frágil

demais e não conhecera uma vida diferente da que seu pai

havia lhe oferecido; vinda de uma cidadezinha do interior

e casada com um homem violento e dominador aos quinze

anos, ninguém consegue fazer muitas escolhas na vida.

Desde aquele dia, Debi, ele e eu nos tornamos amigos

inseparáveis.

Ao terceiro toque, escuto a voz animada do meu melhor

amigo.

– Deusa, estava pensando em te ligar agora mesmo!

– Telepatia é algo que venho tentando com você há algum

tempo, fico feliz que comece a dar resultado – respondi.

Escutei o som de um pequeno sorriso, e ele me perguntou:

– Já lhe deram sua carta de alforria? Quais são os planos?

– Sim, meu bem. Estou a caminho de casa. Estava pensando

em eu, você e a Debi curtimos uma tarde de filmes

regados a pipoca light. Que tal? – sugeri.

– Só você para achar que o melhor programa para o primeiro

dia de férias é ficar trancada num apartamento com

uma biba e uma vadia, assistindo a filmes que nos fazem chorar

e comendo pipoca falsa. Mas estando com as minhas meninas

preferidas, eu topo qualquer coisa. Me pega em quanto

tempo? – Alegrou-se Gu.

– Amore, vou passar na Debi e em seguida aí. Só que não

tenho certeza se ela já está em casa. Já liguei várias vezes e a

vaca não me atende! Só espero que ela não esteja com o Caio,

porque já havíamos combinado que hoje o dia seria só nosso.

Te ligo se qualquer coisa mudar.

– Ok, deusa. Amo você.

– Também amo você.

Segui em direção à casa da Debi. Não era muito longe,

ficava apenas a quinze minutos da faculdade. Aumentei

o volume do som e ouvi uma das minhas músicas preferidas

da Ana Carolina, Confesso. Cantarolei junto e continuei

animadamente.

Oito minutos depois, estacionei em uma das vagas para

visitantes e fui em direção ao apartamento da Debi. Ela mora

sozinha no primeiro andar. Depois de ter ingressado na faculdade,

sua mãe resolveu voltar para o interior, onde havia crescido,

a fim de morar com uma irmã. Alugaram o apartamento

que moravam quando éramos vizinhas, e Debi achou um lugar

perto da faculdade. O apartamento era legal, apesar de passarmos

a maior parte do nosso tempo no meu quarto e sala. A

casa de Debi era maior, com dois quartos confortáveis.

Ao chegar à sua porta, toquei a campainha várias vezes,

mas ela não atendeu. Ela deveria estar com Caio, o namorado

da vez, antes que ele aprontasse alguma cafajestagem. E pode

confiar em mim, ele iria aprontar! Não é que eu implique

com todos os namorados da Debi, mas esse eu tenho uma antipatia

especial. Não gosto do jeito dele, já o flagrei olhando

para várias outras garotas na presença dela. Mas sabe como é

mulher apaixonada, só acredita no que quer. E então, cansei

de brigar por causa desse babaca. Estou apenas aguardando

o momento em que ele vai deixar ela em pedaços e eu irei

juntar os caquinhos. Afinal é para isso que nós, amigas, servimos,

não é?

Como é o Caio? Bem… Mesmo não gostando dele tenho

que admitir que ele não é de se jogar fora. Não é muito

alto, mas é forte na medida certa, cabelos encaracolados supercharmosos

e olhos verdes. É aquele típico predador, com

sorriso fácil e olhar cheio de malícia.

Insisti mais algumas vezes, até que resolvi usar a minha

chave de emergência. No nosso primeiro ano de faculdade,

quando meus pais resolveram viajar o mundo e eu fui morar

sozinha, me senti superindependente. Passei o dia arrumando

e decorando minha casa do meu jeito, quando, ao final

do dia, resolvi tomar um banho relaxante, o primeiro banho

na minha minúscula banheira. Ao sair, levei um baita tombo

que me deixou quase imóvel, pois tinha deslocado o joelho,

fraturado o punho e machucado uma costela… Sorte que

meu celular estava ao meu alcance; assim, liguei para o Gu e

ele teve que arrombar a porta. Desde então nós três temos as

cópias das chaves da casa um do outro.

Quando finalmente abro a porta, vejo a minha melhor

amiga no sofá de três lugares de veludo marrom. Ela parecia

arrasada. Usava um pijama de algodão da turma da Mel, pantufas,

cabelos amarrados num coque desajeitado, comia um

pacote de biscoito Bono, sabor chocolate, com os olhos inchados

e as bochechas vermelhas molhadas de lágrimas. Na

televisão à sua frente passava o filme Doce Novembro. Aquela

cena me partiu o coração. Corri em sua direção, sentei-me ao

seu lado e a abracei forte.

– Bi, o que aconteceu?

Ela colocou o pacote de biscoito sobre a mesinha de centro

e tentou responder, mas estava com a respiração ofegante

e soluçava enquanto lágrimas escorriam como o curso do Rio

Capibaribe pelas suas bochechas. Aconcheguei-a em meu

ombro e tentei acalmá-la, passando a mão em suas costas.

– Amiga, está tudo bem. Estou aqui. Acalme-se e tente

me explicar o que aconteceu, talvez eu possa ajudar.

Ela respirou fundo algumas vezes, recuperou o fôlego, se

soltou do meu abraço para olhar em meus olhos e começou:

– Você estava certa, Lis. Você sempre esteve certa. O Caio

é um cafajeste!

Essa afirmação não me causou espanto… Mas ver como

aquele babaca a deixou… Tinha vontade de separar a sua cabeça

do resto do corpo.

– O que ele fez com você, Bi? Vou acabar com aquele

desgraçado! – ameacei.

– Ele me traiu da forma mais humilhante possível! – ela

respondeu.

Estava com muita raiva, mas tentei manter a calma porque

sei que quanto mais irritada eu ficasse, mais nervosa

Debi iria se sentir.

– Calma, querida, me conte o que aconteceu.

Ela inspirou profundamente e com a voz um pouco menos

oscilante começou a contar:

– Na manhã de ontem, ele me pediu para hospedar sua

prima que chegou de São Paulo. Seria só por uma noite. Não

vi problema algum. Entreguei uma chave do apartamento a

ele. Quando eles chegaram aqui, ele me ligou. Eu estava na

faculdade e ainda teria algumas horas de aula, avisei que

demoraria um pouco… Só que tive a “brilhante” ideia de

voltar mais cedo, não queria ser mal-educada com a prima

dele que nem me conhecia e iria passar horas sozinha em

minha casa. Mas quando cheguei, ela não estava sozinha.

Ele estava com ela.

Nesse momento, a voz dela mudou de um tom triste e

melancólico para um tom cheio de raiva. Mesmo assim, ela

continuou.

– Ele estava transando com ela! Ele estava comendo ela

na minha cama!

Sua voz ganhou ainda mais fúria e ela gritou:

– O cafajeste estava comendo aquela vadia na minha

cama! Na minha cama! – Debi repetiu com desespero.

Não falei? Chegou aquela hora que já tinha mencionado

a você. Hora de juntar os caquinhos. E lá fui eu…

Estava irada, com vontade de matar aquele cafajeste. Matar

não, torturar. Cortar o pau dele fora com uma tesoura de

unha cega. Quem ele pensa que é? Mas tinha que me controlar.

Precisava reerguer minha amiga.

– Querida, vai ficar tudo bem, ok? Ele não era para você

mesmo, Bi. Melhor agora, que o namoro ainda estava no começo,

do que mais tarde, quando você estaria mais envolvida.

De forma desesperada, quase suplicante, Debi falou:

– Mas, Lis, eu estava apaixonada. Como ele pôde? Ele dizia

que me amava, que eu era única, que queria vir morar comigo!

Não suporto vê-la tão triste, mas não podia mentir e afirmar

que tudo que aquele babaca dizia poderia ser verdade.

Afastei-me um pouco dela e comentei:

– Bi, ele dizia, mas não fazia. E quer saber? Agora, não

importa o que ele dizia, e sim o que ele fez. E você não pode

ficar aí se lamentando por ele ser um canalha e não te merecer.

É ele quem tem que se arrepender pelo que perdeu. Já

você tem que aprender que nem tudo que os garotos falam é

verdadeiro. Às vezes, eles só querem conseguir seus objetivos,

querida. Já te disse isso um milhão de vezes.

– Eu sei, Lis, eu sei! Mas ele parecia ser diferente – falou

Debi, com o semblante exausto.

Fico impressionada como uma garota tão legal e linda

como a Débora pode ser tão ingênua e frágil. Quando estava

quase no limite da paciência para ouvir algo relacionado ao

idiota do Caio, disse:

– Não adianta discutirmos isso mais uma vez. Você sempre

soube minha opinião a respeito daquele canalha. O que

importa é seguir em frente.

Ela me olhou com lágrimas nos olhos. Sua voz saiu quase

como um sussurro.

– Não, não quero seguir em frente. Quero ficar onde estou,

enterrada nesse sofá sonhando com Keanu Reeves.

Ela fez beicinho igual uma criança mimada. Eu imediatamente

levantei do sofá e falei com a voz firme e autoritária:

– Mas não vai mesmo! Levanta agora, Bi! Você já tomou

banho hoje?

Ela soltou o ar pelo nariz e virou o rosto para voltar a

olhar a televisão e respondeu:

– Banho? Mas eu nem joguei bola.

Caímos na gargalhada. Após alguns segundos, ela voltou

ao seu olhar triste e lábios contraídos. Então, rapidamente

falei:

– Pronto, já está curada, está até fazendo gracinha. Levanta,

vai tomar banho para animarmos seu dia. O Gu está

nos esperando.

Ela continuou irredutível como uma criança que não

quer dividir o brinquedo com o coleguinha.

– Não, não vou. Sério, Lis. Não estou com vontade, estou

triste, arrasada… Quero ficar aqui neste sofá, chorar o dia inteiro

e comer quatro pacotes de biscoito. Não quero ir para a

sua casa e estragar o dia de vocês. Não vou esquecer tão cedo

o que aconteceu e não serei uma boa companhia.

– Amiga, você sempre será uma boa companhia, independente

de como você esteja emocionalmente. Nós te

amamos e queremos estar ao seu lado quando você precisar.

Além do mais, ficar aí remoendo essa história toda só vai te

causar mais dor. Vamos, levante-se! Fique linda! Vamos sair,

nos divertir, conhecer pessoas novas – respondi com a voz

mais calma e doce que consegui expressar.

Ela não se animou com a proposta e continuou relutante.

– Sair para onde, Lis? Para os mesmos lugares? Onde estão

as mesmas pessoas? Não quero encontrar com ele. Não

sei o que faria se o visse agora.

Só a hipótese de cruzar com o Caio me fez pensar como

o Hannibal Lecter: prepararia o coração dele para servir num

banquete.

– Ah, mas eu sei bem o que faria. Arrancaria suas bolas

com as unhas.

Nessa hora, tive uma ideia. Ela tinha razão, o que ela precisava

era mudar de ares. Ir para longe, se distanciar dessa

história e se divertir.

– Bi, você tem razão! Se ficarmos aqui, vamos acabar nos

mesmos lugares que aquele idiota. Portanto, levante-se agora,

tome um banho rápido, coloque uma roupa confortável e

faça as malas que nós vamos viajar! – disse animadamente.

– Viajar? Ficou maluca? Viajar para onde? – questionou-

-me com cara de espanto.

Dei um sorriso confiante e falei:

– Vamos à praia, baby! Ficaremos bronzeadas, conheceremos

uns surfistas gatos, nos embebedaremos com vodca

barata e fumaremos baseado.

– Que praia, Lis? Como assim praia? Você só pode estar

maluca. Não planejamos nada, não podemos viajar assim

de uma hora para outra. – Ela ainda continuava me olhando

confusa.

– Claro que podemos! Estamos de férias, você precisa

mudar de ares e nós não temos nada que nos prenda aqui o

verão inteiro. Não precisamos planejar. Somos jovens e jovens

se arriscam, docinho. – Pisquei o olho direito e dei um

sorrisinho curvado.

– Certo. Supomos que sua ideia tenha algum fundamento.

Nós vamos a que praia? Ficaremos hospedados

onde? E de quanto dinheiro precisaremos? Porque você

sabe… – Ela rebateu.

Interrompi o discurso careta da minha amiga, que mais

parecia eu e não ela quem estava falando. Sempre fui a mais

centrada. Tudo que faço é planejado com antecedência; ela

é daquelas que se arrisca. Mas agora resolvi ter uma postura

diferente e expliquei:

– Vamos sem destino. Seguimos para o litoral e quando

nos encantarmos por algum lugar, nós paramos. Procuraremos

uma pousada barata, se não houver nenhuma, acampamos.

O Gu tem uma barraca que ele usava quando não tinha

móvel nenhum em sua casa, lembra? Quanto ao dinheiro,

você sabe que não gasto nada do que ganho com o estágio.

Papai não me deixa pagar por nada, então tenho um bom

dinheiro guardado e vai ser tudo por minha conta. Considere

como o presente de aniversário seu e do Gu pelos próximos

trinta anos.

Ela abriu a boca para tentar argumentar, mas não permiti

e continuei.

– Não estou dando a você o direito de escolha.

Virei as costas para minha amiga, que ainda estava sentada

no sofá, e fui caminhando para a porta. Antes de abri-la,

falei por cima dos ombros:

– Fique pronta. Em uma hora volto para lhe buscar. Você

sabe que detesto esperar.

Saí e bati a porta atrás de mim.

 

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